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sexta-feira, 23 de maio de 2025

Conto: Quando o Sonho Despertou



Era sempre o mesmo olhar. Aquele olhar que dizia tudo sem precisar dizer nada. Ela o via em sonhos, como se a vida dela começasse a existir de verdade quando os olhos se fechavam à noite. O nome dele, ela nunca soube ao certo, mas no mundo onírico ela o chamava de Theo. Já ele, em outro canto da cidade, adormecia com ansiedade não pelo descanso, mas pela esperança de reencontrá-la. Em seus sonhos, ela era Elisa, nome que ecoava como uma canção suave entre as árvores que sempre os cercavam.

No mundo real, Elisa era uma jovem reservada, que gostava de andar com fones de ouvido e olhos atentos às nuvens, como se buscasse nos céus alguma resposta que a terra ainda não tinha dado. Trabalhava em uma livraria de bairro, onde passava os dias entre páginas e silêncios, enquanto a noite lhe trazia o consolo da presença de Theo — aquele que a fazia rir sem esforço, que segurava sua mão com ternura e que, mesmo sem jamais dizer "eu te amo", deixava tudo isso escancarado no jeito como a olhava.

Theo, por sua vez, era designer gráfico, alguém que via beleza nos detalhes e no imperfeito. Vivia cercado de telas e projetos, mas nada o inspirava mais do que as cenas que vivia ao fechar os olhos. Elisa era sua musa, embora ele sequer soubesse se ela realmente existia. Durante o dia, tentava esboçar o rosto dela, mas os traços escapavam como água entre os dedos. Só em sonho ele a via com nitidez. E com amor.

Foram anos assim. Sonhos entrelaçados, vidas separadas. Até que, num sábado ensolarado de maio, ambos decidiram ir ao parque — um refúgio de silêncio, verde e leveza que ambos frequentavam em horários diferentes, sem saberem disso. Naquele dia, algo em Elisa a fez mudar a rotina; saiu de casa mais tarde, sem fones de ouvido, como se seu corpo pressentisse que o silêncio daquele momento precisava ser total.

Theo também mudou o percurso. Em vez de pegar a trilha mais movimentada, resolveu caminhar pelo caminho das cerejeiras, um atalho florido e menos visitado.

E então, aconteceu.

Elisa andava distraída, os olhos perdidos na dança lenta das pétalas que caíam das árvores, quando sentiu um arrepio. Parou, sem entender. Foi quando o viu. Ele estava parado a poucos passos, olhando-a com o mesmo espanto silencioso que tomava conta dela.

— É você... — sussurrou ela, sem perceber que havia falado em voz alta.

Theo sentiu o coração descompassar. Aquela era a voz que o embalava nos sonhos. Aqueles olhos, aquele sorriso. Era ela. Era Elisa. Sem maquiagem, sem fantasia, sem dúvida.

— Eu te conheço... — ele respondeu, com a voz embargada de emoção.

O mundo parou por um instante. As árvores balançavam suavemente, como se soubessem que algo sagrado estava se concretizando. Eles não se tocaram de imediato, apenas se olharam — como faziam nos sonhos. Havia um reconhecimento profundo, como se o tempo estivesse apenas aguardando aquele encontro para enfim se permitir acontecer.

Sentaram-se no banco sob a cerejeira mais velha. Começaram a conversar como velhos amigos, como quem retoma uma conversa interrompida na noite anterior. Riram, se emocionaram, contaram as coincidências — ou seriam destinos? — que os haviam guiado até ali. Ambos confessaram sobre os sonhos, sobre os nomes que haviam se dado. Theo. Elisa. Como se em algum lugar, alguma força maior já soubesse quem eram, antes mesmo deles saberem.

Naquela tarde, sob o céu salpicado de rosa, eles perceberam que os sonhos haviam sido apenas o início. Uma preparação silenciosa para algo que finalmente ganhava forma. Era o início de uma história que já havia começado há muito tempo, só que em outro plano.

E o mais bonito de tudo era saber que, agora, não precisariam mais dormir para se encontrarem.

Pois o sonho, enfim, tinha despertado com eles.

P.S: Essa Fanfic conto, crônica ou qualquer nome que você queira dar, ou eu chama-la é criação minha. Por favor respeito os direitos autorais dela.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Conto: Notas de um Amor Desafinado

 

Isadora era uma garota comum, daquelas que passam despercebidas em multidões, mas que carregam um mundo inteiro dentro do peito. Sua vida era simples, marcada por livros empilhados, cafés pela metade e noites insones ao som da música que preenchia seus vazios. Foi assim que descobriu Kael — um cantor de voz rouca, letras viscerais e atitudes controversas.

Ele era amado por suas canções e odiado por tudo o mais. Polêmico, arrogante, colecionador de escândalos e histórias descartáveis. Mas quando cantava... ah, quando cantava, parecia outro homem. Isadora se apaixonou primeiro pela voz, depois pelas letras, e enfim criou em sua mente um Kael que nunca existiu.

Ela sabia tudo sobre ele, ou achava que sabia. Guardava suas músicas como quem guarda cartas de amor não enviadas. E quando soube que ele faria um show em sua cidade, com direito a sessão de fotos com fãs no dia anterior, seu coração tremeu. Era a chance de estar frente a frente com o dono daquela voz que a embalava nas madrugadas.

Vestiu-se com cuidado, não para impressioná-lo, mas para estar à altura do sonho que cultivava há anos. E quando chegou sua vez de conhecê-lo, o mundo parou por um segundo. Ele estava ali, em carne e osso, mais bonito e mais real do que jamais imaginara.

Kael a olhou de cima a baixo com um sorriso malicioso. — “E aí, gata. Já ouvi que fã que vem assim é porque quer mais que foto.

Isadora riu, sem entender se era uma piada. Para ele, era só mais um rosto bonito. Uma aposta com o empresário. "A próxima que me disser que me ama por causa da minha música, eu pego e aposto que cai fácil." Mas havia algo nela... algo que fez com que a risada dele saísse menos segura.

Ele a convidou para uma festa privada depois do show. Ela hesitou, mas cedeu. Foi uma noite de conversas, confissões, um beijo que começou com desejo e terminou com algo indefinido, inesperado. Ela acreditou que havia visto o homem por trás da fama. Ele acreditou que seria só mais uma.

Mas no dia seguinte, ela desapareceu.

Não deixou contato. Nem um bilhete. Kael não entendeu. Pensou que, como outras, ela ficaria atrás. Mas Isadora não ficou. Não o procurou. E isso, pela primeira vez, feriu o ego dele. Mais do que isso: feriu o coração.

Dias se tornaram semanas. Kael não conseguia escrever sem pensar nela. As letras começaram a mudar, tornaram-se mais suaves, mais verdadeiras. Seus produtores estranharam. "Quem é essa mulher que tá te mudando, cara?"

Ele não sabia. Sabia só o nome: Isadora.

E foi atrás dela. Fez posts indiretos. Fez lives onde citava trechos da noite deles. Uma música nova, chamada “Ela Sumiu”, virou sucesso. Mas Isadora ouviu tudo. E chorou tudo.

Porque soube da aposta. Uma amiga dela trabalhava nos bastidores da produção do show. Contou tudo. E a imagem que ela construiu com tanto carinho despedaçou-se como porcelana em chão de mármore.

Quando Kael finalmente a encontrou, ela o encarou com olhos frios. — “Você foi meu sonho por tanto tempo. E no fim, eu fui só mais uma piada na sua lista.

Ele tentou se explicar. Disse que não era mais o mesmo. Que ela havia mudado tudo. Que agora escrevia músicas com o coração e não com o ego. Que a queria não por vaidade, mas por necessidade.

— “Você me ensinou que o amor não se conquista com promessas, mas com presença. E eu estou aqui, Isadora. Errado, quebrado, mas aqui. Me deixa tentar de novo. Me deixa mostrar que você é mais do que uma letra de música. Você é o refrão da minha vida.”

Ela quis acreditar. Mas o coração machucado não cede tão fácil.

Kael decidiu, então, que não falaria mais. Mostraria.

Mandava flores sem bilhete. Deixava cadernos com letras escritas à mão na porta do trabalho dela. Parou de se envolver em polêmicas. Sumiu das redes. E sua próxima turnê... foi cancelada. Todos os fãs queriam saber por quê.

Mas ela sabia. Ele estava esperando que ela voltasse.

E um dia, voltou. Em silêncio. Sentou-se ao lado dele, no mesmo banco do parque onde se viram pela última vez. E segurou sua mão.

— “Se você me machucar de novo... eu juro que dessa vez não escrevo poesia. Só me apago de vez.”

Kael sorriu, sem ironia, sem vaidade. — “Eu só quero escrever a nossa música agora. Sem final.

P.S: Essa Fanfic conto, crônica ou qualquer nome que você queira dar, ou eu chama-la é criação minha. Por favor respeito os direitos autorais dela.

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Conto: No Limiar da Escuridão



Numa cidade onde os segredos se escondiam atrás das janelas fechadas e os becos sussurravam ao cair da noite, vivia Lía, uma jovem de espírito inquieto e olhar que parecia sempre buscar algo — embora ela própria não soubesse o quê. Trabalhava numa pequena livraria no centro antigo, um lugar esquecido pelo tempo, onde o cheiro das páginas velhas competia com o som morno das horas arrastadas.

Havia lendas naquela cidade. Uma delas falava de um homem feito de sombra — Caelum, chamavam-no em sussurros. Diziam que era mais antigo do que o próprio tempo, um espectro que caminhava entre o mundo dos vivos e o que existe além dos véus. Procurado por muitos — bruxos, caçadores, mulheres em luto e homens em desespero — jamais fora encontrado. Diziam que ele escolhia. E escolhia somente uma vez.

Lía nunca deu ouvidos a essas histórias. Era prática demais para mitos e teimosa demais para medos. Mas havia algo que a perturbava. Desde algumas semanas, sentia-se... observada. À noite, os reflexos nas vitrines pareciam mais fundos do que deveriam. Ao caminhar, os passos atrás de si não eram seus. E ao dormir, sonhos com olhos prateados invadiam sua mente — olhos que brilhavam dentro do escuro.

Na terceira noite de lua nova, ela o viu.

Estava em sua varanda, como se já estivesse ali há muito tempo. Um homem alto, de traços quase imperceptíveis, envolto numa escuridão que parecia viva, pulsante. Seus contornos não obedeciam à luz — o luar o atravessava como se ele fosse feito de fumaça densa, mas seus olhos... ah, os olhos... Eles eram reais. Claros. Impossíveis de encarar por muito tempo sem sentir algo se desfazendo por dentro.

Lía congelou, mas não gritou. Ele também não se moveu. O ar entre eles vibrou como se o silêncio tivesse peso.

— Você... existe? — ela murmurou.

— Você não me procurava — ele respondeu, sua voz mais quente do que ela esperava. Um eco suave, envolvente.

— Não.

— Por isso me encontrou.

Naquela noite, ela o deixou entrar. Não porque quisesse — ou sequer entendesse o que estava acontecendo — mas porque algo dentro dela cedeu. Uma parte antiga, adormecida, reconheceu aquele ser.

Caelum não tocava, mas sua presença queimava. Sentava-se em sua poltrona favorita e a observava ler, sem piscar. Suas palavras eram poucas, mas cada uma parecia escolhida a dedo, como se tocassem partes dela que nem ela sabia que existiam.

— Por que me seguiu?

— Porque algo em você é feito de sombra também — respondeu ele. — E a sombra sempre reconhece sua origem.

Os encontros se tornaram frequentes. E perigosos. Lía começou a perder peso. Dormia pouco. Seus colegas notaram seu olhar distante, sua pele mais pálida, sua atenção rarefeita. Mas ela se sentia viva como nunca antes. Caelum não a beijava, mas seu olhar sobre ela era um toque constante. Quando falava ao pé de seu ouvido, o ar esquentava como verão. Quando se aproximava demais, seu corpo tremia — de medo, de desejo, de algo entre os dois que ela não sabia nomear.

Uma noite, ele estendeu a mão.

— Vem comigo.

— Para onde?

— Onde ninguém volta. Onde tudo é sentido, mas nada é dito. Onde o desejo devora e a luz morre.

Lía hesitou. O mundo parecia pequeno demais para ela, mas a eternidade ao lado de um mistério... era um salto sem volta.

— E se eu não quiser mais voltar?

Caelum sorriu. Pela primeira vez. Um sorriso triste, quase humano.

— Então será minha. Inteiramente.

Ela encostou os dedos nos dele — frios como a noite mais escura. E então tudo ao redor desapareceu.

Alguns dizem que ela enlouqueceu. Que sumiu do mapa. Outros juram ter visto uma mulher com olhos de sombra caminhando pelas ruas vazias da cidade, à meia-noite, quando o vento sopra diferente.

Mas os que a conheciam sabem que Lía nunca procurou o perigo. Foi o perigo que a escolheu. E, quando finalmente se olhou de frente, percebeu que uma parte dela sempre pertenceu à escuridão.

Caelum só veio buscá-la de volta.

P.S: Essa Fanfic conto, crônica ou qualquer nome que você queira dar, ou eu chama-la é criação minha. Por favor respeito os direitos autorais dela.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Conto: Finale


Ele disse que seria para sempre!.
Disse com aquela voz que carregava a mesma firmeza de quem promete diante de um altar. Mas havia algo em mim — uma parte antiga e silenciosa — que já sabia que “para sempre” era uma palavra grande demais para a minha realidade. Nunca durava. Nunca permanecia. Eu tinha aprendido, cedo demais, que tudo o que é bonito tende a acabar com uma pontada de dor.

Miguel era pianista.
Tocava como quem falava com os deuses. Seus dedos corriam pelas teclas como se carregassem segredos que o mundo não estava pronto para ouvir. Cada nota sua era um sopro de algo sagrado e ao mesmo tempo devastador. E eu… bem, eu era só Vivian, violinista de sentimentos afiados e um jeito de andar que sempre parecia estar atravessando o mundo com pressa. Mas quando nos encontramos, houve música.

Começou em um ensaio, como tudo começa: despretensiosamente.
Um olhar por cima das partituras, um elogio simples, uma conversa interrompida por afinadores e o ranger de cadeiras. E então, o som. O som de nossos instrumentos se encontrando pela primeira vez. O piano dele e o meu violino. Um diálogo que nascia sem palavras, só com som e silêncio. Aquele primeiro dueto foi mais íntimo do que qualquer beijo que trocamos depois. E talvez tenha sido ali, ainda antes do primeiro toque de mãos, que começamos a nos amar.

Durante um tempo, fomos perfeitos. Ou achávamos que éramos.
A música unia tudo: nossos dias, nossas noites, nossas crises e reconciliações. Eu me sentia viva ao lado dele, mesmo quando ele mal falava. Bastava ouvi-lo tocar e era como se ele dissesse tudo o que sua boca não conseguia. Mas com o tempo — e o tempo sempre chega como um desafino — as pausas começaram a aumentar. Pequenas ausências que não tinham nome. Ele parecia estar em outro lugar, mesmo quando estava ao meu lado. O piano ainda soava, mas algo em suas mãos já era ausente.

Comecei a notar detalhes.
Mensagens apagadas no celular.
Notas trocadas, mudas, entre aulas.
A mudança no tom de sua voz ao dizer “está tudo bem”.
Miguel não mentia com palavras. Ele mentia com o corpo. Com os gestos. Com o jeito de evitar o olhar depois de dizer “te amo”.

Mas continuei ali.
Continuei tocando.
Porque a música era o que restava quando tudo o resto desmoronava.
E eu precisava crer que, enquanto os sons estivessem vivos, talvez nosso amor também estivesse.

A última apresentação foi a mais bela de todas. O auditório lotado, luzes mornas, nossos nomes no programa impressos lado a lado. Tocamos juntos como nos velhos tempos. Ninguém na plateia poderia imaginar que, atrás da harmonia da melodia, dois corações já batiam em tons diferentes. No fim, houve aplausos. Muitos. Mas para mim, houve apenas silêncio.

Miguel me olhou ao apagar das luzes.
Era o mesmo olhar do começo, mas sem o brilho.
Sem o “para sempre”.
Sem nada.

Nos separamos naquela noite sem brigas, sem gritos, sem discursos. Só deixamos de voltar.
E isso doeu mais do que qualquer despedida dita em voz alta.

Hoje, toco sozinha.
Em casa, no escuro, com o violino apoiado ao ombro e o peito ainda ecoando memórias que nunca terminaram direito.
Miguel está longe, talvez tocando por aí, dizendo novos “para sempre” para outras pessoas.
Mas eu sei. Sei que aquele amor foi um prelúdio breve de uma ópera maior que ainda estou escrevendo.

Nosso amor começou com a música.
E terminou com ela.
Mentiras também têm ritmo, e o dele era suave, quase imperceptível.
Até que virou dissonância.

Ele disse que seria para sempre.
E talvez tenha sido.
Porque cada vez que fecho os olhos e deixo os dedos dançarem sobre as cordas do violino, ainda ouço seu piano, lá no fundo da memória, tocando nossa última nota.

Finale.

P.S: Essa Fanfic conto, crônica ou qualquer nome que você queira dar, ou eu chama-la é criação minha. Por favor respeito os direitos autorais dela.

domingo, 18 de maio de 2025

Conto: Quando a Chuva Tem Nome


Eu só posso estar ficando louca. Como pode uma simples voz causar esse tipo de arrepio, percorrer minha espinha como um sussurro íntimo, me fazer esquecer o que estava fazendo, onde estava indo, quem eu era? Era só uma voz. Era isso o que eu dizia a mim mesma, tentando recuperar o controle dos pensamentos que giravam feito folhas em vento forte. “Vamos lá, menina, respira fundo. Esquece o som dessa voz. Ficar assim não vai te ajudar.” Mas o corpo parecia não me obedecer. O coração acelerado não ouvia meus comandos racionais.

Foi então que ele se aproximou. Os cabelos um pouco bagunçados, o olhar calmo de quem carrega o tempo no bolso e um sorriso que já nasceu meio vitorioso, como se soubesse que eu não conseguiria disfarçar o tremor nas mãos.

— Eu me chamo Arthur — disse, rindo com naturalidade. — Quando nos esbarramos, você deixou cair suas chaves no chão. Quando percebi, saí correndo pra te alcançar. Acho que emagreci uns dois quilos no processo.

O sorriso dele tinha o poder irritante de ser encantador. Um riso fácil, sem pretensão, que fazia a tarde parecer menos abafada.

— Obrigada, sou a Laura — foi tudo o que consegui dizer. Mas por dentro, meu corpo gritava: Lá vai você ficar parada, menina! Pergunta logo o que está remoendo sua cabeça! Então, antes que o silêncio se tornasse incômodo, soltei, hesitante:

— Essa voz… eu já escutei ela em algum lugar.

Ele arqueou uma sobrancelha, curioso.

— Minha voz?

— Aham… eu conheço sua voz — insisti. — Mas não sei como. Nunca falei com você. Acho…

Arthur me olhou de um jeito que me desmontou. Como se ele tivesse acabado de lembrar de algo muito antigo, algo guardado a sete chaves e que, por algum motivo inexplicável, resolveu emergir naquele exato momento. Passou a mão pelo queixo, deu dois passos para trás e me olhou de cima a baixo com um sorriso travesso.

— Pequeninha, fofa, com uma voz e um sotaque interessante… hum, você me faz lembrar de uma amiguinha.

Franzi a testa.

— Que amiguinha?

Ele deu uma risada baixa, quase nostálgica.

— A minha pequeninha tarada por chuva.

Demorei dois segundos para processar. E então caiu a ficha. Abri um sorriso largo, quase infantil, e deixei a gargalhada escapar, leve como o início de uma tempestade de verão.

— Chuvinha? Chuvinha tentadora é você?

Arthur assentiu com um olhar meio culpado, meio satisfeito.

— Em carne, osso e algumas gotas de saudade.

Foi como se uma janela se abrisse dentro de mim. Uma memória antiga, dessas que a gente enterra sem querer, voltou à tona com uma nitidez absurda. Ele era o garoto das noites de voz no chat de áudio, das conversas aleatórias em fóruns sobre música e livros. Aquele que me chamava de “chuva” porque, segundo ele, minha risada lembrava o som das gotas batendo no telhado.

Na época, éramos dois estranhos conectados por fones de ouvido e tardes sem pretensão. Nunca trocamos nomes reais, nunca vimos rostos. Apenas vozes. Era isso. Era a voz dele. Agora fazia sentido. Aquela voz tinha sido, durante um tempo, meu abrigo favorito.

— Eu não acredito — murmurei, meio zonza com a coincidência absurda. — Você era real esse tempo todo.

Arthur encolheu os ombros com um sorriso quase doce.

— Sempre fui. Mas confesso que preferia o mistério. Até te ver hoje. Aí percebi que queria descobrir se a chuva ainda caía igual.

Ficamos em silêncio por um momento. Um silêncio confortável. As pessoas passavam apressadas ao nosso redor, a cidade seguia em sua rotina barulhenta e impessoal, mas ali, entre nós, havia algo suspenso, suave, inesperado.

— E aí, chuvinha — ele disse, com aquele tom provocativo que me fez sorrir mesmo sem querer. — Vai me deixar descobrir se a tempestade ainda mora em você?

— Só se você prometer que não vai mais fugir da chuva.

Ele sorriu como se já soubesse a resposta antes mesmo de perguntar.

E então, como se fosse um trecho que o universo esperava para tocar há anos, começou a chover.

Não corremos.
Não nos escondemos.
Apenas ficamos ali, encharcados, rindo.

Como se o tempo todo, tudo estivesse esperando apenas aquele reencontro.

P.S: Essa Fanfic conto, crônica ou qualquer nome que você queira dar, ou eu chama-la é criação minha. Por favor respeito os direitos autorais dela.

sábado, 17 de maio de 2025

Conto: O Coração Que a Noite Levou


Dizem que nas profundezas da mata velha, onde as árvores crescem tortas de tanto guardar segredos e as corujas cantam baixo para não acordar os mortos, habita uma criatura que não sente. Um ser sem alma, sem passado, sem futuro — apenas presente. Ele caminha por entre as sombras como parte delas, olhos escuros como a noite fechada e pele fria como o fim de um presságio. Ninguém conhece seu nome. Ninguém jamais voltou para contar com precisão. Por isso, apenas sussurram: onde ele passa, o amor cessa.

Mas ela o encontrou.

Era jovem, de passos leves e olhar firme, com o peito ainda quente de sonhos e a ingenuidade daquelas que acham que podem curar qualquer dor com um toque. Seu nome se perdeu com o tempo, mas naquela época chamavam-na de Mariel. Era filha da ventania, criada entre folhas secas e histórias antigas, e sabia que havia algo estranho na mata. Sentia, mesmo de longe, a presença de algo quebrado. E como toda alma marcada por amor demais, quis consertar.

Durante meses, o procurou. Seguiu pegadas que não deixavam marcas, escutou o silêncio que gritava seu nome em madrugadas escuras. Até que ele apareceu.

Não como um monstro. Não como um homem. Mas como um vulto esculpido de vazio e ferida. Os olhos eram poços fundos sem fim. E ainda assim, ela não recuou.

— Eu não vim para te amar. — disse ela, com a voz firme, como quem recita uma verdade para si mesma. — Vim para te mostrar que o amor não é fraqueza. É só mais um nome para a coragem.

Ele a observou por longos segundos, e por um instante, pareceu duvidar de sua própria natureza. Como se a presença dela provocasse uma rachadura imperceptível em sua existência.

— Você não entende — respondeu ele, numa voz que soava como folhas secas sendo pisadas. — O amor me quebra. Ele me enraíza. Eu fui feito para andar, para desaparecer. Não posso amar. Eu não quero amar.

Mas ela ficou.

Ficou em silêncio quando ele se recolhia à escuridão. Ficou quando ele sumia por dias e retornava como se nada fosse. Ficou quando ele a olhava como quem suplica para ser esquecido. E com o tempo, sem pedir licença, ela o amoleceu. Seus dedos roçaram o intocável, e sua voz, antes seca, ganhou resquícios de melancolia.

Ele começou a sentir.

E foi isso que o apavorou.

Na noite em que a lua sumiu do céu, ele voltou com os olhos cheios de raiva — não por ela, mas por si mesmo. Sabia o que estava prestes a fazer. Sabia que era a única saída.

Ela o esperava. Sorria como quem não tem medo, como quem acredita que pode ser abrigo até para o fim do mundo.

— Você está sentindo — disse ela, baixinho.

Ele assentiu. Um gesto tão humano, tão miseravelmente doce, que o envergonhou até os ossos.

— Então por que fugir?

— Porque se eu sentir demais, eu fico. E se eu fico, eu quebro. — murmurou ele.

E antes que ela pudesse reagir, antes que as palavras saíssem da garganta, ele a segurou com força. O toque era gélido, ancestral, quase ritualístico.

Ela não gritou.

Ele passou a mão sobre o peito dela, e com um gesto preciso, arrancou seu coração. Não como um assassino. Mas como alguém que arranca uma flor do jardim para impedir que ela murche com o tempo.

E então, segurando aquele coração quente entre os dedos, ele sussurrou:

— Eu te avisei.

Enterrou o coração na terra, sob as raízes da árvore mais velha da mata. Depois partiu, carregando a culpa como uma nova sombra.

Dizem que desde aquela noite, Onde Ele passa, flores de sangue brotam do chão. E ao longe, pode-se ouvir a risada suave de uma mulher — não de dor, mas de amor que não pôde ser contido, nem mesmo pela morte.

E o vento leva seu nome em segredo, até hoje, como uma promessa maldita:

Quem amar Onde caminha, terá o peito aberto e a eternidade calada.

P.S: Essa Fanfic conto, crônica ou qualquer nome que você queira dar, ou eu chama-la é criação minha. Por favor respeito os direitos autorais dela.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Conto: Entre os Véus do Sono


Desde pequena, Melanie era diferente. Não no sentido óbvio que os adultos gostam de apontar — ela não era excessivamente tímida, nem tão brilhante a ponto de chamar atenção nas aulas. Mas enquanto o mundo dormia e se perdia em fragmentos confusos de sonho, Melanie caminhava por florestas que respiravam, cidades que flutuavam no céu, mares cujas ondas cantavam em línguas antigas. Seus sonhos não eram feitos de névoas — eram tão vívidos que, ao despertar, ela sentia o cheiro da madeira molhada, ouvia ainda o eco das vozes que a chamavam por nomes que ela nunca soube que tinha.

Ao completar dezessete anos, algo mudou. Ela começou a despertar dentro dos próprios sonhos — não como expectadora, mas como alguém que escolhia onde ir, o que dizer, o que tocar. Descobriu, com o tempo e alguma leitura escondida, que aquilo tinha nome: projeção astral.

E foi numa dessas noites, em um campo de girassóis sob um céu violeta, que ela o viu pela primeira vez.

Peter.

Não foi ele quem disse seu nome — foi o vento. Soprando entre as flores, sussurrando em seu ouvido com um calor quase humano: Peter...

Ele estava parado ao longe, de costas para ela, com as mãos nos bolsos de uma calça escura. Tinha o cabelo castanho, desalinhado como se nunca tivesse conhecido um pente, e uma presença que fazia o tempo ali desacelerar. Melanie tentou correr até ele, mas o campo parecia se estender a cada passo — e quando enfim o alcançou, ele se virou… mas seu rosto, sempre seu rosto, era um borrão de sombra e luz. Uma metade oculta, como se o universo ainda não tivesse decidido o que ele era.

— Quem é você? — ela perguntou, tentando tocar seu braço.
— Você sabe — ele respondeu, com uma voz que era ao mesmo tempo familiar e nova, como uma lembrança esquecida da infância.

Acordou chorando, sem saber por quê.

No dia seguinte, tentou escrever sobre ele em seu diário. "Peter" era tudo o que tinha. Nenhuma pista de onde ele morava, de quem era, por que seus olhos — embora nunca vistos — lhe causavam tanto arrepio no peito.

Noites seguintes, ela tentou reencontrá-lo. Aprendeu a se concentrar antes de dormir, a visualizar o campo de girassóis. Às vezes, dava certo. Às vezes, encontrava-se em outros lugares: uma estação de trem em ruínas, uma ponte suspensa entre dois mundos, um deserto onde as estrelas caíam como neve. E Peter estava sempre lá — de costas, de perfil, atrás de uma neblina ou com o rosto mergulhado em sombra. Nunca completamente visível. Mas sempre presente.

Havia uma conexão entre eles que não podia ser explicada. Ela sentia isso nos ossos, como se tivessem se encontrado mil vezes antes, em vidas que ela mal conseguia lembrar.

Certa noite, num jardim onde as flores sussurravam segredos ao vento, Melanie ousou mais.

— Por que não consigo ver você? — perguntou, com a voz embargada. — Por que está sempre escondido?

Peter hesitou. Pela primeira vez, sua silhueta pareceu tremular, como se estivesse prestes a desaparecer.

— Porque você ainda não está pronta — disse. — Algumas verdades não sobrevivem à luz do dia.

Ela acordou com o coração acelerado, a respiração falha, como se tivesse corrido mil quilômetros em direção a algo que escapava por entre os dedos.

Mas não desistiria.

Porque, de algum modo que nem ela mesma compreendia, Melanie sabia: encontrar o rosto de Peter seria como encontrar uma parte perdida de si mesma.

E enquanto o mundo dormia em silêncio, ela fechava os olhos com um sussurro no peito.

Peter... estou chegando.

P.S: Essa Fanfic conto, crônica ou qualquer nome que você queira dar, ou eu chama-la é criação minha. Por favor respeito os direitos autorais dela.

quinta-feira, 15 de maio de 2025

Conto: Linhas Paralelas



Havia um tempo em que tudo parecia andar em sincronia. Passos leves, corações em compasso, olhos voltados para o mesmo horizonte. Éramos dois viajantes silenciosos, caminhando por linhas que, mesmo sem se tocarem, sabiam uma da outra. Linhas paralelas — tão próximas e tão distantes, fiéis à sua natureza de nunca colidir, mas de sempre coexistir.

Não percebíamos no começo. Era fácil crer que o caminho seria sempre claro, que o sol nasceria com doçura e as noites trariam apenas estrelas. Ríamos muito, falávamos sobre o amanhã com um brilho quase infantil. E mesmo quando não dizíamos nada, havia entre nós uma certeza muda de que seguiríamos juntos, lado a lado, na mesma estrada invisível que a vida desenhava sob nossos pés.

Mas o tempo é um escultor exigente.

Ele nos forçou a passos diferentes. Às vezes mais rápidos, às vezes trêmulos, outras vezes parados, congelados na indecisão. Vieram dias cinzentos. Noites em que a distância não era só física, mas feita de ausências, de silêncios que gritavam o que não queríamos ouvir. Vieram derrotas pequenas, mas dolorosas. Vieram as alegrias que, por alguma razão, deixaram de ser compartilhadas. E mesmo assim… mesmo assim, nossas linhas nunca deixaram de seguir. Paralelas. Imóveis em sua persistência.

Houve dias vazios. Dias em que o mundo parecia ter perdido a cor, como se a própria alma se recolhesse num canto do peito, cansada demais para sentir. Mas também houve dias cheios de esperança. Dias em que uma lembrança sua surgia como raio de sol rompendo a nuvem mais escura. Eu via seu rosto na memória e me agarrava à certeza tola — e ainda assim bela — de que nem tudo estava perdido.

A teimosia, ah... aquela teimosia gentil que nunca me deixou desistir. Ela me fazia olhar para o chão com atenção, procurando as marcas deixadas pelas nossas pegadas, mesmo quando já apagadas pelo tempo. Me fazia enxergar que, por mais que nossas trilhas parecessem seguir em direções diferentes, por mais que o mundo empurrasse com força contrária, nossas linhas ainda estavam ali. Fortes. Firmes. Vivas.

E foi assim, sem aviso, que o tempo nos devolveu a nós mesmos.

Não com estardalhaço, não como nos filmes com reencontros dramáticos. Foi silencioso. Foi no vento que soprou no rosto, naquela manhã em que te vi outra vez — não com os olhos, mas com o coração. Porque ali estavam as linhas. Cruzando. Lentamente. Inevitavelmente. Como se tivessem esperado esse exato momento para enfim se tocar.

Você veio de lá, eu de cá, e entre passos hesitantes e olhares que buscavam a coragem de um abraço, o que o tempo tentou afastar... se uniu outra vez.

Não éramos mais os mesmos. Mas ainda éramos nós.
Mais inteiros.
Mais reais.
Mais conscientes das tempestades que atravessamos, dos abismos que superamos, das dores que não nos mataram.
Agora sabíamos. As linhas que nos conduziram — com seus altos e baixos, suas retas e curvas — tinham uma razão. Cada desvio, cada separação, era apenas um caminho necessário para o reencontro.

E ali, diante do novo arco-íris que surgia no céu das nossas histórias, entendi:
As linhas paralelas não se tocam no papel.
Mas na vida... ah, na vida elas sabem o momento certo de se cruzar.

P.S: Essa Fanfic conto, crônica ou qualquer nome que você queira dar, ou eu chama-la é criação minha. Por favor respeito os direitos autorais dela.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Conto: A Montanha Tatra


A arte me consome.

Não é uma metáfora romântica, é quase física. Ela me toma por dentro, como se cada traço, cada som, cada palavra que surge na minha mente tivesse o poder de me atravessar. Em momentos assim, quando estou mergulhada em um desenho, numa melodia que apenas eu escuto, sinto minha alma se alongar, esticar-se até encontrar alívio. O tempo para. Tudo congela, menos eu e aquilo que estou criando. Ali, naquele breve instante de entrega, posso respirar.

É sempre isso. Quando me falta ar, é à arte que peço socorro.
E quase sempre, ela me responde.

Mas houve dias… dias longos, silenciosos, onde nem mesmo ela conseguia me alcançar. Eu me escondi fundo demais — não do mundo, mas de mim. Ela tentava tocar as bordas da minha existência, mas eu estava além. Ainda assim, de forma estranha e generosa, ela encontrou uma maneira de me alcançar. Me ofereceu mais uma válvula de escape: o silêncio.

Não o silêncio passivo, morto. Mas aquele que me permite sumir por dentro. O silêncio que me autoriza a desaparecer das expectativas, das palavras prontas, dos sorrisos ensaiados. Não precisei explicar a ninguém. Não precisei dizer os motivos. Alguns estavam visíveis, sim, nas minhas expressões, na minha ausência. Mas os reais… os reais estão presos dentro de mim, submersos em um subconsciente que ainda não me permite compartilhar sua metade.

Não agora.

Talvez um dia. Mas talvez não.

Às vezes abro os olhos e, por um momento, penso estar pronta para voltar. Voltar para onde? Ainda não sei. Então fecho os olhos de novo. E nesse gesto simples, quase infantil, descubro algo precioso: quando fecho os olhos, estou livre. Recuso o mundo, retomo minha solitude. Abandono tudo o que me prende — mas não esqueço. Nunca esqueço.
E é por isso que retorno.

Sempre retorno.

E retorno cheia de sonhos que, no fundo, sei que não se realizaram. Que talvez nem nasceram para se realizar. São viagens. Astral. Invisíveis. Instáveis. Sou feita delas. E é quando volto para o mundo que percebo com clareza: não é aqui que pertenço. O chão é duro demais. As vozes, altas demais. O real, cru demais. Não me encaixo.

E tudo bem.

Encaixo-me a milhas acima do que chamam de vida. Encaixo-me no vento. Nas alturas. Nos espaços onde o pensamento se dissolve e o corpo se entrega. É ali, entre o grito e o silêncio, que existo inteira. Onde posso correr livre, feroz, calma. Onde posso ser viva sem permissão.

Coragem e controle. Duas palavras que sempre desejei carregar comigo. Queria poder calar essas vozes que vivem em minha cabeça. Queria poder dizer “basta” e que elas se calassem. Mas não posso. Elas falam por mim. Às vezes contra mim. São parte de mim. E talvez seja por isso que eu escreva — por não saber silenciá-las.

Então, por favor. Não tenha medo.

Me permita estar aqui, mesmo sem estar.
Me encontre nas entrelinhas, nos espaços em branco.
Faça das minhas palavras algo mais bonito do que elas parecem ser.
Use-as como pontes.
Quebra muros.
Derrube tudo o que o mundo construiu entre nós.
Enfrente os dragões — sim, eles existem — que guardam os cinco cantos da minha existência. Eles são antigos, famintos, mas não invencíveis.

E quando tudo parecer confuso demais, siga meu último traço:
A montanha Tatra.

É lá que estarei.

Você saberá quando chegar. Sentirá o vento diferente. O ar vai doer nos pulmões. Mas não desista.
Procure os olhos selvagens, as marcas do frio, o uivo que não é só animal.
Estarei na companhia dos lobos. Eles me aceitaram como sou.
Eles não exigem explicações.
Não pedem cura.
Eles apenas correm.

E eu corro com eles.

P.S: Essa Fanfic conto, crônica ou qualquer nome que você queira dar, ou eu chama-la é criação minha. Por favor respeito os direitos autorais dela.

terça-feira, 13 de maio de 2025

Conto: Antes que o Coração Entendesse

 

Cecília era uma menina feita de sonhos. Sonhos simples, bordados em papel de carta, alinhavados com fitas de cetim, guardados como segredos em caixas floridas. Crescera entre páginas de livros que falavam de amores doces, impossíveis, encantados. Não conhecia o gosto do primeiro beijo, nem o estremecer das mãos entrelaçadas. Tinha o coração virgem de tudo, mas fértil de esperanças.

Foi numa manhã comum, dessas que não prometem nada, que encontrou a primeira carta. Estava dobrada com cuidado, deixada entre as páginas do seu caderno de literatura. O envelope era pálido, como um suspiro antigo, e dentro havia um poema — palavras simples, mas cheias de ternura. Sem remetente. Só uma assinatura no fim: M.

A princípio, pensou ser brincadeira. Alguém zombando da sua timidez, da sua maneira delicada de existir. Mas, na semana seguinte, veio outra. E mais uma, na outra ainda. As palavras, antes poemas, começaram a se tornar confidências. Pequenas histórias, observações sobre ela, detalhes que só alguém que a olhava de verdade saberia. "Seu jeito de prender o cabelo quando está concentrada me faz sorrir o dia inteiro", dizia uma. Cecília começou a esperar pelas cartas como se esperam pelos dias de sol depois de uma longa chuva.

Até que descobriu: o autor era Maurício.

Maurício era calmo, falava baixo, tinha um sorriso escondido nos cantos dos lábios e um olhar que parecia compreender o silêncio das coisas. Quando começou a conversar com Cecília pessoalmente, a conexão que antes se escondia nas cartas se materializou. Eles riam de bobagens, dividiam chocolates e confidências. Ele começou a escrever não mais versos, mas páginas de um diário apaixonado. Escrevia sobre seus sentimentos com uma doçura rara, contava os dias desde que a conheceu, falava dos medos que tinha, e de como se sentia seguro ao lado dela.

O namoro começou devagar, quase como um sussurro. Um toque de mãos, um olhar mais demorado. Ele era gentil, cuidadoso. Passava as tardes com ela, buscava-a na escola, sabia seu chocolate favorito e fazia questão de comprar sempre. Tratava-a como se fosse feita de cristal. Como se ela fosse uma princesa saída dos livros que ela lia.

Cecília vivia um sonho. Um conto de fadas sem dragões, só com jardins, doces, cartas e abraços. Mas com o tempo, algo em seu peito começou a mudar. Era sutil, mas presente. O coração já não corria desenfreado quando o via. O frio na barriga, que antes se anunciava ao menor toque de suas mãos, sumira. Ela não sabia explicar. Era seu primeiro namoro — como poderia entender?

E havia outra coisa. Maurício era tão cuidadoso, tão respeitoso, que mal a tocava. Nunca ultrapassava os limites, sequer os sondava. “Quero respeitar você”, dizia com um sorriso puro. Mas aos poucos, aquilo que antes era ternura começou a soar como distância. Cecília começou a se perguntar: ele realmente a desejava? Ou apenas gostava da ideia dela?

Essa dúvida corroía em silêncio.

Ela nunca ousou perguntar. Como poderia? Tudo era tão perfeito, tão limpo. Mas era como estar numa dança onde só um dos dois se movia. Sentia falta de algo que não sabia nomear — talvez fosse desejo, talvez fosse intensidade. Talvez só fosse a sensação de estar realmente viva.

O fim não foi dramático. Foi calmo, quase como o começo. Um olhar trocado, uma conversa sincera. “Acho que nosso tempo passou”, disse ele, com um meio sorriso triste. Ela assentiu. O coração não chorava — apenas compreendia. A chama que antes queimava agora era só uma brasa morna, quase fria.

Cecília guardou as cartas em uma caixa. Nunca leu de novo. Mas nunca jogou fora.

Porque, apesar de tudo, aquele foi o seu primeiro amor. E como todo primeiro amor, deixava saudades — não pela dor, mas pela beleza da inocência. Por tudo que foi descoberto, sentido e, acima de tudo, vivido com verdade.

Ela não era mais a mesma menina. Ainda doce, mas agora com olhos que enxergavam além das palavras bonitas. E, embora o coração não tenha acelerado mais como antes, ela sabia: um dia, aceleraria de novo. Mas por alguém que soubesse dançar com ela — e não apenas a observar como se fosse uma flor intocável.

P.S: Essa Fanfic conto, crônica ou qualquer nome que você queira dar, ou eu chama-la é criação minha. Por favor respeito os direitos autorais dela.

domingo, 11 de maio de 2025

Conto: A Força da Loba {Parte II}

 

Na floresta, não existia pressa.

As árvores respiravam com paciência milenar. Os rios corriam sem destino, como se soubessem que o importante não era chegar, mas apenas fluir. E Alleria, com o corpo marcado pela dor e o espírito cicatrizando aos poucos, permitiu-se reaprender o tempo.

Ela dormia quando o corpo pedia, acordava quando a luz dourava a pele do mundo. Não mais havia relógios. Não mais havia vozes ordenando, cobranças sufocantes, palavras cheias de expectativas. Havia apenas ela — e o silêncio, que antes a aterrorizava, agora era seu abrigo.

O silêncio da floresta era diferente. Era vivo.

Era feito de sussurros das folhas, do canto tímido das aves, do farfalhar de pequenos animais entre os arbustos. Era um silêncio que dizia “você pode respirar agora”. E Alleria respirava. Longo, profundo, pela primeira vez em muito tempo. Como se cada suspiro arrancasse de dentro dela mais um pedaço da velha dor, mais um grilhão invisível que antes a prendia ao que não merecia.

No início, o corpo sentia falta do que conhecia. A língua procurava palavras, os ouvidos ansiavam por conversas. Mas aos poucos, ela aprendeu outra forma de escuta. Uma forma que não precisava de voz.

Aprendeu a ouvir as árvores. Sim, elas falavam. Contavam histórias em suas rachaduras, nas folhas que tombavam com resignação. Contavam de tempos antigos, de outros que haviam passado por ali — alguns em paz, outros em fuga. A terra era um livro aberto, e Alleria lia cada página com os pés descalços, com a alma faminta de verdade.

E então vieram eles.

Os lobos.

Primeiro como sombras. Silhuetas distantes entre os troncos grossos. Ela os via com o canto dos olhos, mas não ousava se aproximar. Sentia o respeito que se deve ter aos que carregam sabedoria selvagem. Mas os lobos... eles sabiam. Sentiam nela algo que nem ela sabia nomear. Algo partido, sim, mas pulsante. Uma ferida antiga, mas que agora sangrava coragem.

O tempo fez seu trabalho invisível. Um dia, uma fêmea jovem deitou próxima a ela, sem medo. Alleria não se moveu. Apenas aceitou. Depois vieram os filhotes, brincando entre as pedras, roçando nela como se a conhecessem. E então, numa noite em que o céu estava tão limpo que as estrelas pareciam mais próximas, o lobo alfa se aproximou.

Era uma criatura magnífica. Imenso, imponente, com olhos cor de âmbar e um porte que fazia o mundo ao redor se calar. Ele a olhou por longos segundos. Alleria não desviou. Seus olhos humanos, feridos mas firmes, encontraram os olhos selvagens do lobo. Não havia medo. Havia entrega. E ele compreendeu.

Aproximou-se devagar, cheirou suas mãos, seu pescoço, seu coração. Depois uivou. E ela compreendeu: fora aceita.

Naquela noite, ela correu com eles. A floresta a acolheu como filha.

Os pés bateram na terra úmida com força, o vento rasgava os cabelos, o sangue corria quente como há muito não fazia. Os uivos atravessavam os galhos como tambores tribais. E Alleria, com os olhos brilhando e o peito aberto, soube: havia nascido outra vez. Não como quem esquece quem foi, mas como quem se refaz por inteiro. Não havia mais espaço para dor que não fosse transformada. Não havia mais peso que não pudesse ser solto.

A cada noite, corria com mais força, com mais liberdade. Caçava com eles, dormia entre eles, uivava para a lua como quem reza. Era mulher, era lenda, era animal. Não havia nome que a definisse, nem limite que a contivesse. Não pertencia a ninguém, nem mesmo à sua antiga dor.

A floresta era seu templo. O corpo era seu altar. A alma, agora, era vento.

Durante o dia, brincava com os filhotes, ensinava-os a subir pedras, escalar troncos. Às vezes deitava no lago, boiando com os olhos fechados, sentindo o sol acariciar sua pele. Outras vezes escalava árvores apenas para ver o horizonte, como quem vigia o mundo com olhos de quem já não teme mais o que vem. Ela dançava sozinha sob a chuva, girando, rindo, gritando — uma mulher em êxtase com sua própria existência.

Não havia aplausos. Não havia plateia. E ainda assim, era a mais verdadeira de todas as performances.

Os humanos que ousavam entrar naquela floresta falavam dela com reverência. Uns diziam que era uma bruxa da terra, outros que era o espírito de uma loba ancestral. Ninguém ousava se aproximar. Ela era mito. Um sussurro entre os caçadores, uma prece entre os viajantes.

Mas ela estava viva.

Tão viva que doía. Tão inteira que transbordava.

E nos momentos em que se lembrava da menina que chorava sozinha num quarto escuro, não havia rancor. Apenas um carinho distante, como quem olha para uma versão antiga de si com amor. Ela não queria voltar para o mundo. Não queria reencontrar os rostos que lhe mentiram, nem ouvir novamente os nomes que um dia a feriram. Não. Ela queria apenas continuar correndo. Correndo com o coração aberto e os pés sujos, atravessando a floresta como uma tempestade feita de liberdade.

Porque, no fim, Alleria havia compreendido algo que poucos têm coragem de aceitar:

A solidão pode ser um lar.
A dor pode ser uma semente.
E o silêncio, quando escolhido, é o som mais puro da alma liberta.

P.S: Essa Fanfic conto, crônica ou qualquer nome que você queira dar, ou eu chama-la é criação minha. Por favor respeito os direitos autorais dela.

Conto: Aquela que Escolheu o Silêncio {Parte I}

  


Alleria não nasceu forte. Ninguém nasce. Ela era, em sua essência mais pura, feita de ternura. Tinha olhos grandes que absorviam o mundo como se ele ainda pudesse ser belo, mesmo em suas falhas. Desde pequena, via poesia nas pequenas coisas: no orvalho da manhã repousando sobre a relva, no canto de um passarinho cansado, na mão estendida de um estranho que apenas sorria. Ela acreditava. Nas pessoas, nas promessas, nos laços invisíveis que unem corações.

E talvez por isso o mundo a tenha escolhido como alvo.

O que aconteceu com ela não foi uma tragédia única, um evento brutal que rompessem seus dias de forma abrupta. Foi uma construção lenta, silenciosa, quase gentil em sua crueldade. Como gotas caindo sobre a mesma pedra por anos, até perfurá-la. Começou com pequenos abandonos — uma ausência sem explicação, um carinho negado, uma palavra cortante disfarçada de conselho. Aqueles que diziam amá-la eram os que mais lhe doíam. E isso confundia. Porque quando o amor machuca, quem se pode culpar?

Alleria começou a mudar sem perceber. Um dia deixou de sorrir ao acordar. No outro, já evitava o espelho. E depois, parou de sonhar com o futuro. Os que estavam ao redor notaram a mudança, mas não perguntaram. Apenas se afastaram. Como se tristeza fosse uma praga contagiosa. Como se alguém quebrado deixasse de merecer afeto.

Mas foi o último golpe que a destruiu.

Ele. O único em quem ainda confiava. Aquele que conhecia suas cicatrizes e dizia amá-las. Que prometera ficar, mesmo nos dias ruins. Foi ele quem gritou palavras que não voltam. Foi ele quem a acusou de ser demais, de sentir demais, de existir como se isso fosse um erro. E então ele se foi. Não com um adeus, mas com um silêncio que doeu mais que qualquer grito.

Alleria caiu no chão frio do quarto naquela noite e ali ficou. Chorou até as lágrimas secarem e depois chorou por dentro, onde ninguém via. E quando amanheceu, já não era ela.

Não havia mais nada para buscar. As ruas, as pessoas, os rostos, tudo lhe parecia distante, artificial. O mundo havia se tornado um lugar hostil demais para alguém como ela. Então, pela primeira vez, tomou uma decisão que era só sua: iria desaparecer. Mas não como os que desistem da vida. Ela queria viver — só não ali, não com eles, não sob as regras de um jogo onde bondade é fraqueza e ternura é punida.

E assim foi.

Sem deixar cartas. Sem explicações. Apenas partiu.

Foram dias e dias de caminhada. Com os pés feridos, a fome roendo o ventre, o corpo cansado e a alma exausta. Mas ela não parava. Era como se a dor fosse empurrando-a, como se tudo o que perdera agora a impulsionasse. Subiu colinas, atravessou riachos, cruzou vales esquecidos por mapas. E quando chegou àquela floresta antiga, sentiu algo que não sentia há tempos: um abraço invisível. A terra parecia aceitá-la. As árvores não faziam perguntas. Os animais não exigiam sorrisos.

Ali, enfim, pôde respirar.

Montou um abrigo entre raízes e folhas. Passou a colher os frutos silvestres, a observar os movimentos do céu, a ouvir os cantos da noite. Fez amizade com uma coruja que lhe visitava ao entardecer. Passou a conversar com o vento. Sentia a presença de algo maior — talvez a própria natureza, talvez o espírito das mulheres que também haviam fugido do mundo. Na floresta, Alleria deixou de ser uma menina ferida. Tornou-se loba.

Não uma loba feroz. Não um monstro vingativo. Mas uma criatura feita de silêncio, de observação, de instinto. Sozinha, sim. Mas dona de si. A solidão, ali, era um alívio, não uma dor. Ninguém podia feri-la. Ninguém mentia. O tempo corria diferente. E ela, enfim, não precisava provar nada a ninguém.

As lembranças ainda vinham. Em algumas noites, caía de joelhos e soluçava até o corpo inteiro doer. Gritava sem som. Mas eram lutos que precisava viver. E ali, entre as árvores, ninguém a calava.

Ao longo dos meses, ela deixou de chorar. Não porque esqueceu — mas porque aceitou. Ela era agora sua própria história. Os que a feriram ficaram para trás. Suas vozes não ecoavam mais ali. As sombras não a alcançavam. E ainda que não fosse plena, ainda que carregasse cicatrizes que jamais desapareceriam, Alleria era, finalmente, livre.

E isso, para alguém que já foi cativa de tantos afetos, era tudo.

P.S: Essa Fanfic conto, crônica ou qualquer nome que você queira dar, ou eu chama-la é criação minha. Por favor respeito os direitos autorais dela.

sábado, 10 de maio de 2025

O Dia em que o Silêncio Virou Adeus {Parte III}

 

Foram semanas de promessas. De mensagens constantes, de carinho à distância. Rafael não só manteve o laço aceso, ele o alimentava com palavras que pareciam vir direto do coração. Dizia que sentia falta do cheiro dela, da risada fácil, da forma como ela colocava a mão no cabelo quando ficava tímida.

Foi ele quem disse “eu te amo” primeiro.

Sophia demorou a responder. Guardava a palavra como quem protege um cristal frágil. Amava com cuidado, com responsabilidade. “Te amo” nunca foi algo que dissesse por impulso. Mas Rafael insistia, escrevia de madrugada, mandava áudios com voz embargada, dizendo que tinha certeza do que sentia. Que ela era diferente. Que ele nunca tinha se sentido assim antes.

Então, um dia, ela acreditou. Ela se permitiu. E disse:

— Eu te amo também, Rafael.

E ele respondeu na hora, como se estivesse esperando por aquele momento.

— Eu sabia. Eu sempre soube que você sentiria o mesmo.

A partir dali, o mundo pareceu mais leve. As caminhadas até a escola ganharam mais cor. Os passeios com amigas tinham sempre o celular à mão, esperando uma nova notificação com o nome dele. Havia risos em áudios, corações em fotos, planos em conversas. Ele dizia que voltaria logo, que queria passar um feriado inteiro ao lado dela. Falava de conhecer mais sua família, quem sabe um dia levá-la para conhecer a dele. Sophia flutuava — mas com os pés no chão. Ainda assim, flutuava.

Mas então… o silêncio começou.

Primeiro, foram horas a mais sem resposta. Depois, dias. Depois… nada. Três semanas. Três semanas inteiras de espera, de mensagens visualizadas e não respondidas, de noites mal dormidas e coração inquieto. Ela checava o celular a cada meia hora. Escrevia e apagava. Se perguntava se tinha dito algo errado. Se tinha sido demais.

Foi numa manhã comum, enquanto caminhava apressada para a escola, que tudo começou a desmoronar.

Sophia avistou Diogo, primo de Rafael. Ele vinha pelo outro lado da rua, fones nos ouvidos e olhar alheio. Ela se aproximou sem pensar, o coração acelerando — ainda havia esperança de que fosse só um mal-entendido.

— Oi, Diogo. Tudo bem? Você tem falado com o Rafael? Sabe se está tudo bem?

Ele tirou os fones com calma. A expressão não mudou. Era quase apática. Quando respondeu, foi com uma frieza que gelou a espinha de Sophia.

— Ele tá namorando. Não vai voltar mais.

A frase caiu como uma pancada. Um golpe seco no peito.

— O quê? — ela murmurou, sentindo as palavras embolarem na garganta. — Mas ele… ele mandou mensagem há pouco tempo. Falou de futuro, disse que me amava. Como assim ele tá namorando? E por que não falou comigo?

Diogo deu de ombros.

— Você sabia que isso não ia dar certo.

E então se afastou, como se tivesse dito algo banal. Como se não tivesse acabado de estilhaçar o que restava de esperança dentro dela.

Sophia continuou andando como um fantasma. Tinha uma prova importante naquele dia, e sabia que não podia faltar. Mas tudo ao seu redor parecia irreal. A voz da professora, o som dos colegas, até a luz do sol. Tudo doía. Tudo parecia zombar da dor silenciosa que ela tentava conter.

Ao voltar para casa, trancou a porta do quarto e ligou para Rafael. As mãos tremiam. As pernas também. O coração batia rápido, entre raiva e desespero. O telefone chamou, por longos segundos. Quando ele atendeu, a voz veio sem nenhuma emoção.

— Oi.

— Você tá mesmo namorando? — ela perguntou, direto, sem rodeios. Queria ouvir da boca dele. Queria entender.

— Tô, sim.

Silêncio.

— Por quê? — a voz dela falhou. — Por que não me falou? Por que me fez acreditar? Por que me fez te amar? Você me disse que nunca faria isso comigo. Você prometeu.

Ele suspirou do outro lado. Um suspiro frio. Distante.

— Aconteceu. É isso. Não era pra ser.

— Mas você disse que me amava.

— Eu achei que amava. Mas mudou. Me desculpa.

Ela sentiu o chão sumir.

— Você devia ter me avisado. Devia ter dito que não queria mais. Eu teria entendido. Mas você me fez esperar. Me fez sonhar.

— Desculpa. Adeus, Sophia.

E o telefone ficou mudo.

Ela caiu na cama como quem perde as forças. As lágrimas vieram com fúria. Ela não chorava só por Rafael — chorava por si mesma, por ter se permitido sentir, por ter quebrado sua promessa de proteção. Por ter acreditado.

"Eu nunca faria isso com você."
Foi o que ele disse.

Mas ele fez.

Fez e foi embora.

E agora, tudo o que restava a ela era o eco de uma voz que um dia prometeu amor e entregou silêncio. Um amor que começou com um beijo numa praça e terminou com uma ligação sem alma. Sophia se sentia vazia, tola, traída. Não apenas por Rafael. Mas por si mesma — por ter abaixado a guarda, por ter entregue o coração.

E naquele dia, entre soluços e memórias, ela aprendeu da forma mais cruel que algumas promessas não se quebram: se apagam. Como se nunca tivessem sido feitas.

P.S: Essa Fanfic conto, crônica ou qualquer nome que você queira dar, ou eu chama-la é criação minha. Por favor respeito os direitos autorais dela.

A Última Vez Que Ele Olhou Para Trás {Parte II}

 


Desde o instante em que Rafael foi embora da cidade, depois daquele primeiro encontro mágico, Sophia mergulhou em uma espera doce e ansiosa. A cada manhã, seu coração acordava antes do corpo, esperando pela primeira mensagem. E ela sempre vinha. Longa, cheia de detalhes, cheia de vontades que pareciam se alinhar com as dela. Rafael escrevia com uma ternura rara. Falava da saudade como se fosse uma dor física. Como se a ausência dela o apertasse por dentro.

"Sonhei com você de novo essa noite."
"Não vejo a hora de te abraçar de novo, de te beijar encostado na parede da tua casa."
"Você me faz falta, Sophia. Mas é a falta boa, que dá sentido aos dias."

Cada palavra chegava até ela como uma pequena faísca. E juntas, essas faíscas reacenderam nela algo que ela acreditava ter morrido: a esperança. Não era mais apenas um jogo de beijos e promessas. Ela sentia. Sentia mesmo. Ele a fazia rir com coisas bobas, mandava áudios só com a respiração lenta dizendo que queria estar ali deitado com ela, e perguntava como foi o dia, se ela comeu direito, se estava dormindo bem.

Era carinho. Era cuidado. Era raro.

Então, quando ele disse que voltaria, mas dessa vez mais cedo do que o planejado, Sophia quase não conseguiu esconder a euforia. Contava os dias, depois as horas, até que ele chegou.

E quando ele chegou... parecia que o mundo voltava ao eixo. Rafael a envolveu num abraço tão apertado que Sophia esqueceu qualquer dor que já tivesse sentido antes. Ele tinha o dom de fazer o tempo desacelerar. Os dois se olharam e foi como se não existisse ninguém mais naquela praça. Como se tudo o que importava estivesse naquele instante.

Passaram dias colados. Beijos roubados entre risadas, mãos entrelaçadas no meio da rua, promessas cochichadas em silêncio nos cantos dos cafés. Foram ao cinema, se perderam em livrarias, tiraram fotos como se estivessem tentando eternizar o momento.

Numa dessas noites, sentados na mesma praça onde tudo começou, encontraram Bertha — a amiga que sempre esteve por perto, mas nunca por inteiro.

Ela olhou Rafael com surpresa e comentou com um sorriso enviesado:

— Nossa, ele é mais bonito do que você falou, Soph.

Sophia riu, sem notar a pontada por trás daquelas palavras. Ela não imaginava — e talvez não quisesse imaginar — que alguém que chamava de amiga pudesse esconder veneno no elogio.

— Ele é mesmo… mas ele é mais do que isso — respondeu, olhando para Rafael do outro lado da praça. — Ele me deixa segura. Me deixa leve.

E naquele momento, ela dizia a verdade mais pura que conhecia.

Rafael chegou logo depois, ofegante, sorrindo com a urgência de quem precisava estar perto. Cumprimentou Bertha com educação, mas foi em Sophia que ele mergulhou. Ficaram grudados. Era como se ele tentasse compensar os dias em que estiveram separados com cada segundo ao lado dela.

Naquela mesma semana, ele foi visitar sua casa. Conheceu sua mãe, suas irmãs. Ajudou a colocar pratos na mesa, riu das histórias da infância dela, se entrosou como se já fizesse parte da família. Sophia o observava com uma espécie de ternura silenciosa. Era como se quisesse gravar cada cena, cada gesto, para o caso de tudo aquilo acabar um dia.

Deitados no tapete da sala, fones divididos, ouviram Elis Regina cantar “Como nossos pais”. Cantaram juntos trechos soltos, entre beijos demorados e carinhos nos cabelos. Ele sussurrava frases entre as músicas, e Sophia tentava não se perder nelas:

— Eu nunca imaginei conhecer alguém como você…
— Queria te levar comigo.
— A gente vai dar certo, não vai?

E ela sorria. Mas quando as palavras vinham carregadas de promessas, o medo se acendia nela.

— Não promete, Rafael… — ela dizia, com os olhos baixos. — Só… vive isso comigo. Sem prometer o que a gente não pode controlar.

Ele tocava o rosto dela com delicadeza, como se quisesse apagar qualquer lembrança de dor.

— Eu prometo só se for de verdade.

Foi uma tarde leve. Do tipo que ela contaria mil vezes no futuro. E, infelizmente, ela contaria mesmo. Como quem conta uma história bonita que ninguém acredita, porque o final parece não combinar com o começo.

Quando chegou a hora dele ir embora, não quis carro, não quis pressa. Disse que queria ir a pé até a casa do primo. E foi. Foi como se fosse parte de um filme. Rafael andando de costas, acenando, jogando corações com as mãos no ar, dizendo:

— Já tô com saudade!
— Você me deu o melhor fim de semana da vida.
— Não esquece de mim, hein?

Ela ria e mandava beijos de volta. Ficou parada na calçada até não vê-lo mais. Até o vulto dele sumir no fim da rua.

E ela, com o coração transbordando, nem imaginava que aquele era o último momento dos dois. A última vez que ele olharia para trás.

O que Sophia não sabia é que, enquanto ela gravava aquela cena como uma lembrança preciosa, do outro lado, em silêncio, já começava a nascer o abandono. O esquecimento. E uma traição onde menos esperava.

P.S: Essa Fanfic conto, crônica ou qualquer nome que você queira dar, ou eu chama-la é criação minha. Por favor respeito os direitos autorais dela.